Desde que H.G. Wells escreveu o romance “A Máquina do Tempo”, muitos se fascinam pela ideia de viajar no tempo. Mas, o que era pura ficção de um romancista ganhou contornos de verdade, quando em 1972 a revista italiana La Domenica del Corriere publicou uma matéria anunciando a invenção do Cronovisor pelo padre Marcello Ernetti: uma maquina capaz de registrar imagens e sons do passado.

Nascido e criado em Santo Antonio de Jesus, mas residindo por 10 anos em Salvador, em minhas andanças pelas pequenas cidades do interior baiano, uma sensação sempre me acompanhava; a de estar adentrando em um outro tempo. Ao chegar, ainda vibrando no ritmo acelerado da cidade grande, é preciso alguns dias para o corpo e a mente começarem a se adaptar àquela nova dimensão temporal.

Com o intuito de registrar essas temporalidades, me vi diante de um desafio: Como materializar, através da fotografia, o descompaço temporal entre a grande cidade e o interior, que apesar de pertencerem objetivamente ao mesmo tempo histórico, vivenciam ritmos e realidades tão diferentes?

A câmera digital de ultimo modelo registra o presente de acordo com os recursos tecnológicos que dispõe, gerando imagens que tem a nitidez e a objetividade como marcas principais. Como transportar o observador através deste túnel do tempo, se não com uma imagem que, na sua estrutura intrínseca, também remeta ao passado?

A caixa mágica, aparelho pré-fotográfico – câmera escura, incapaz de registrar imagens, construído com objetos reaproveitados – possibilita ao observador ver o presente com as marcas e a estética de um tempo passado, como se fora a materialização do sonho de Wells e do padre Ernetti. Neste jogo cronológico, a máquina digital registra a tela do aparelho artesanal, ligando o fio dos tempos em uma imagem que funde as diferentes dimensões em um mesmo registro.

 

Trabalho exposto no Circuito das Artes 2014, Salvador, Ba.